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    quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

    CRÍTICA [CINEMA] | "La La Land: Cantando Estações", por Marlo George


    Nas artes, o cinema foi o meu primeiro amor e a música minha amante. Talvez seja por isso que eu adore filmes musicais. Prazer que, sendo bastante justo herdei do meu pai, um fã de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice, durante os vários almoços tradicionais de domingo dos anos 80, regados à garrafas de um litro de Coca-Cola, frango assado e clássicos como "Gethsemane (I Only Want to Say)""The Actress Hasn't Learned the Lines (You'd Like to Hear)", "Jacob and Sons", entre outros.

    Nos últimos anos, deixando de lado bobagens como a série "High School Musical", o cinema e a TV vem nos apresentando produções musicais de qualidade. "Mamma Mia!" (2008), "Os Miseráveis" (2012) e "A Very Murray Christmas" (2015) são exemplos de produções que sustentam a bandeira do gênero e à mantém flamulando, como se dissessem: "Nós não deixaremos o gênero musical morrer!".

    E é justamente na tentativa de não deixar um estilo musical morrer que conhecemos Sebastian, protagonista do novo musical "La La Land: Cantando Estações", um musico tradicionalista que tenta manter viva a chama do Jazz e o legado de seus mestres. Tocando em bares e bandas cafonas, Sebastian vai ganhando a vida enquanto sonha em montar seu próprio bar de Jazz. Do outro lado do multiverso artístico de Los Angeles conhecemos também Mia, uma garçonete aspirante à atriz que sonha com o sucesso. Entre esbarrões e coincidências estes dois seres nascidos para a arte, apesar de perdidos no deserto do anonimato que leva ao fracasso artístico, se encontram e se unem para trilharem seus caminhos, paralelos, juntos.


    Ryan Gosling, ator oriundo dos programas infantis da Disney e que nunca mostrou muito serviço depois de adulto, finalmente se firma como um astro completo ao dar vida à Sebastian. Gosling canta, dança e, surpreendentemente, toca piano no filme. Foram duas horas de lições do instrumento, sete dias por semana, até atingir a perícia necessária para dispensar dublês de mão ou recursos em CGI. Mérito que lhe rendeu um Globo de Ouro de Melhor Ator em Musicais ou Comédia e uma possível indicação ao Oscar. Seu jeitão soturno e, digamos, meio inexpressivo que sempre me incomodou, dessa vez caiu como uma luva, pois Sebastian tem ares de musicista e se parece com muitos de meus colegas e parceiros das diversas bandas pelas quais passei como crooner. Ele tem a atitude.

    Sua parceira, a também vencedora do Globo de Ouro de Melhor Atriz em Musicais ou Comédia Emma Stone, é a atriz Mia, garota que sempre sonhou com as histórias da tia que vive em Paris e que pretende se tornar estrela de teatro ou cinema. Uma personagem tão clichê que é garçonete na cafeteria de um grande estúdio de Hollywood, ou seja, tão perto e tão longe, ao mesmo tempo, de seu sonho. Porém, este esteriótipo é o que dá o tom certo para a personagem e a torna imensa, especialmente pela interpretação competente de Stone, que também dança, sapateia e canta em "La La Land: Cantando Estações". Emma certamente será indicada aos Academy Awards por sua magnífica performance.

    Como já disse, a dupla Gosling/Stone é formada por artistas completos que, sob a direção de Damien Chazelle, apresentaram um trabalho sem excessos. O respeito às limitações vocais de ambos imprime uma leveza e realismo ao musical. Quase todas as canções são interpretadas com voz de cabeça, dispensando o uso de solfejos e vocalizações exageradas. Até mesmo os falsetes são bem colocados.

    Os números de dança, à exemplo dos musicais, trazem coreografias de dificuldade mediana e foram bem executados, mostrando que a regra do "menos é mais" funciona mesmo.


    No aspecto dramático a dupla supera todas as expectativas. Além de tudo que já disse sobre isso acima, preciso ressaltar que a verdade incutida em suas interpretações as tornam maiores que a vida. Me diverti com a excentricidade de Sebastian, porque refletem muitas de minhas próprias manias, pensamentos, modos ou certezas. Com ele me iludi com a possibilidade de sucesso fácil e fútil, pois esse tipo de coisa acontece mesmo. Senti, como Mia, o amargar de cada audição e teste que a personagem infrutiferamente se submeteu. Sofri com ela em seus fracassos, pois os vivi, de forma análoga, em minha própria trajetória.

    Para aqueles mais vividos, "La La Land: Cantando Estações" pode ser um filme mais pesado que para os mais jovens ou inexperientes. É facilmente possível fazer uma relação entre os dramas das personagens e os nossos próprios dilemas.

    Além de Gosling e Stone, o filme traz ainda duas participações especias. J.K. Simmons, astro do primeiro filme de Damian Chazelle, "Whiplash - Em Busca da Perfeição", pelo qual ganhou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 2015, e músico John Legend. O primeiro interpreta um gerente de bar ranzinza, enquanto o segundo é um dos parceiros musicais de Sebastian. Estão bem e não tentam ofuscar a dupla protagonista. O restante do elenco é formado por músicos e dançarinos profissionais, assim como por alguns atores e atrizes desconhecidos.

    O verbete La La Land é definido como um estado mental no qual a pessoa não sabe exatamente o que está ocorrendo ao seu redor, mas também é, assim como L.A., um dos apelidos da cidade de Los Angeles. Filmado em locações, o longa mostra a La La Land em takes panorâmicos belíssimos e pontos turísticos icônicos escolhidos à dedo. O passeio por um dos estúdios de cinema da cidade é impagável e a textura e granulação do filme trazem nostalgia e encanto. Falando nisso, "La La Land: Cantando Estações" é descaradamente um tributo aos musicais de antigamente. Desde a introdução do filme à sua conclusão, tudo soa antigo, apesar da trama ser passada nos dias atuais.


    O roteiro é do próprio Chazelle e baseado no período de sua vida no qual tentou se tornar músico profissional. Bem estruturado, proporcionou um filme fluído, com atos bem definidos. O recurso de usar as estações do ano como "termômetro" da relação das protagonistas não é inédito, mas foi bem empregado e conduzem o expectador pela trama. Rico em diálogos, especialmente aqueles em que o tema é o tradicional versus o moderno, "La La Land: Cantando Estações" toca o dedo na ferida e coloca o mainstream em cheque-mate. Adorei. O script também é repleto de detalhes e sub-textos. Aqueles mais atentos vão poder catar várias mensagens escondidas nas entrelinhas do enredo.

    A trilha sonora de Justin Hurwitz  é estupenda, transitando entre o erudito e o pop, e passando por referências e clichês do gênero com maestria. "City of Stars" é a cereja do bolo entre as canções originais. Escrita por Hurwitz, Benj Pasek e Justin Paul é tocada em várias ocasiões durante o longa, sempre bela e tocante. Impossível sair da sessão sem assobiá-la por aí, como Sebastian na divertida cena no Pier.

    Uma experiencia que deve ser vivenciada no cinema, "La La Land: Cantando Estações" merece todas as indicações e prêmios que vem recebendo e já se firma como uma das maiores produções cinematográficas de seu gênero. Damien Chazelle está para os anos 2010, assim como Quentin Tarantino está para os 90. Um visionário à serviço do resgate ao bom cinema.

    É muito bom viver na mesma época que o jovem Chazelle. Sua obra, mesmo que pequena, já é uma das provas de que, apesar dos pesares, o mundo ainda tem jeito. Dizem por aí que o termo "gênio" está desgastado e usado à revelia do bom senso. À este extraordinário diretor de 31 anos, este título se aplica.



    Marlo George assistiu, se divertiu, se emocionou, se comoveu, se iludiu, se desencantou e escreveu...


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