Dirigido por Destin Daniel Cretton, estrelado por Tom Holland, Sadie Sink, Liza Colón-Zayas, Tramell Tillman, Zendaya - além de participações especiais de Jon Bernthal, Mark Ruffalo, Michael Mando, Marvin Joness III e Jacob Batalon, dentre outros -, o filme “Homem-Aranha - Um Novo Dia” traz uma versão mais madura do personagem e adiciona novos elementos ao combalido Universo Cinematográfico Marvel.
As espetaculares desventuras do aracnídeo-humano
Fãs da nona arte andam sem ter o que comemorar no cinema há quase dez anos, desde que filmes como “Vingadores - Ultimato” meio que fecharam a tampa do caixão do subgênero que se habituou chamar de ~“cinema de super-heróis”. De lá para cá, restaram apenas tentativas que ou se mostraram totalmente ineptas ou raríssimos bons exemplares de entretenimento.
E isso se dá pela tal “saturação” do estilo narrativo desse tipo de obra ou somente o próprio público percebendo que estava assistindo o mesmo filme de novo e de novo e de novo? Cada um pode responder por si, mas as preferências de cada pessoa mudam com o passar do tempo. E “Homem-Aranha - Um Novo Dia” pode até não ser um filme muito profundo - até porque crianças precisam entender a história -, mas não deixa adultos desamparados na sessão.
Na trama - que se passa quatro anos após os eventos de "Homem-Aranha - Sem Volta Para Casa" -, Peter Parker agora é um adulto vivendo completamente sozinho, tendo se apagado voluntariamente da vida e das memórias de quem ama, com ajuda do feitiço conjurado por Doutor Estranho. Combatendo o crime numa Nova York (EUA) que já não sabe mais o seu nome, ele se dedica integralmente a proteger a cidade - um Homem-Aranha em tempo integral -, mas, à medida que as exigências aumentam, a pressão desencadeia uma surpreendente evolução física que ameaça sua própria existência, enquanto um estranho padrão de crimes dá origem a uma das ameaças mais poderosas que ele já enfrentou... um poderoso vilão que ninguém sequer consegue saber quem é.
O roteiro da dupla Chris McKenna & Erik Sommers (ambos dos três filmes anteriores do Cabeça de Teia) tem o firme intuito de agradar três públicos: fãs de quadrinhos, quem só viu os filmes da Marvel Studios e... crianças. Mas, surpreendentemente, consegue êxito em todas as categorias - como se tivessem feito um checklist com as principais reclamações acerca das produções pregressas. A resposta é uma só: tratar esses personagens com o respeito que merecem e trazer mais dos quadrinhos originais às telonas. O resultado? Uma história que serve tanto como entretenimento, como traz alguma reflexão sobre amadurecimento na vida de “jovens adultos” e, também, oferece boas sacadas sobre os personagens, trazendo um frescor à narrativa - como se fosse uma espécie de “reboot” da franquia com parte do mesmo elenco.
(o único "porém" do roteiro é que, em momento algum, se explica como Peter Parker faz para ganhar dinheiro sem trabalhar - Peter chega a mencionar que está fazendo pós-gradução, mas, talvez, o valor de uma bolsa não seria o suficiente para pagar o aluguel de um apartamento, comprar equipamentos eletrônicos etc; exceto se, quem sabe, ele tenha recebido, junto com a inteligência artificial E.D.I.T.H., um fundo de Tony Stark para manter custos estudantis e de sobrevivência até a maioridade - porém, como dito anteriormente, o roteiro não explica)
Essa é, talvez, a melhor interpretação do personagem e Tom Holland (do recente filme "A Odisseia") faz por merecer todo o carinho dos fãs. Ele não só entende o que o roteiro pede em matéria de amadurecimento do personagem, mas também de postura corporal - num perfeito equilíbrio entre dramaticidade quando necessário e momentos cômicos criados pelo constrangimento. Se esse fosse o último filme dele interpretando o personagem, seria um encerramento com chave de ouro - mas, calma aí, marvete, pois isso não deve acontecer tão cedo.
O mesmo pode ser dito do numeroso elenco coadjuvante. A começar por Zendaya, (que co-estrelou recentemente a última temporada da série "Euphoria") que no primeiro filme da franquia parecia deslocada demais do restante, mas, aos poucos, foi se tornando peça fundamental para o sucesso dessa franquia - e também tem algumas das cenas mais dramáticas da produção, oferecendo uma performance bem acima da média em matéria de dramaticidade (pelo menos, o roteiro lhe traz algo bem melhor para trabalhar dessa vez). Jacob Batalon (que esteve no recente filme "Dupla Perigosa") também segura bem a onda de ser um coadjuvante com bem menos participação dessa vez, mas entrega o necessário para enriquecer momentos mais emotivos da trama.
Sadie Sink (da série "Stranger Things"), por outro lado, poderia ter entregue algo monotemático, mas sua composição faz toda diferença - que boa atriz, hein? - e sua personagem “misteriosa” (Sério que você não sabe não sabe quem ela é? Tá bom...) ainda terá bastante importância no Universo Cinematográfico Marvel. - não basta apenas saber quem ela interpreta, mas o que a personagem busca e o que será dela daqui para frente. Personagem essa que ainda traz uma espécie de "espelhamento" do "momento Martha" de "Batman V Superman" - aquela informação há muito esquecida até por ferrenhos fãs de quadrinhos sobre determinado personagem que vem à tona num filme não como curiosidade, mas como adição importante à trama.
Liza Colón-Zayas (que interpreta a mãe de Miles Morales nos longas animados "Homem-Aranha no Aranhaverso" e "Homem-Aranha - Através do Aranhaverso") é uma boa adição ao elenco como uma versão bem conhecida personagem do universo do Teioso nos quadrinhos e traz aquele coeficiente quase maternal que a Tia May tinha nos filmes anteriores. E ainda que sua atuação não comprometa, Jon Bernthal e seu Justiceiro estão um tantinho descaracterizados em relação às versões apresentadas na série "Demolidor - Renascido" e o recente especial "Justiceiro - Uma Última Morte". É como se fosse uma versão do personagem para menores acompanhados dos pais - algo parecido foi feito em relação ao Lobo de Jason Momoa no recente filme "Supergirl". Incomoda para quem assistiu esses produtos audiovisuais citados - quem não assistiu, não deve nem reparar...
Tramell Tillman (da série "Ruptura") interpreta o típico personagem que, aparentemente, terá mais importância no futuro do Universo Cinematográfico Marvel. Mas, nesse filme, tem um papel fundamental para a explicação do verdadeiro intuito da personagem de Sadie Sink. Michael Mando (da série "Better Call Saul") e Marvin Joness III (da série DC "Raio Negro") - dentre muitos outros - tem participações relâmpago como vilões do Aranhoso, somente para mostrar que eles estão por aí e, a qualquer momento, o projeto do filme do "Sexteto Sinistro" (que reuniria vilões do herói criado por Steve Ditko e Stan Lee) pode ser ressuscitado...E Mark Ruffalo (do filme "Caminhos do Crime") entrega a performance Mark Ruffalo de sempre como Bruce Banner / Hulk - mas o roteiro nem exigia tanto assim, também...
Existem, pelo menos, quatro participações especiais que não estavam entre o elenco previamente divulgado. A primeira acrescenta bem pouco à narrativa - servindo essencialmente como plot device, trazendo pistas para que o herói siga com sua investigação (e mostrando que o Universo Cinematográfico Marvel está cada vez mais se integrando ao Aranhaverso da Sony Pictures) -, a segunda é bem fundamental para a resolução dos problemas enfrentados pelos protagonistas (e tem a ver com a personagem de Sadie Sink) e a terceira... Bem, digamos que essa personagem não pode ser vista, mas é, basicamente, um pedaço do legado de Tony Stark na vida de Peter Parker. Sobre a última... É o breve retorno de uma importante personagem em três cenas que meio que resolvem parte do conflito de dois personagens... Dizer mais que isso seria dar spoilers e, aqui, não é espaço para isso.
Na parte técnica, vale destacar as coreografias das cenas de luta - coordenadas por Xiangyang Xu (da equipe de Jackie Chan!), pois, o que é mostrado em tela - principalmente no enfrentamento entre Miranha e os ninjas do Tentáculo - se aproxima de uma bela mistura de wi-fu e acrobacias dignas de espetáculo do Circo de Soleil, resultando em cenas vibrantes e até algo poéticas (e tira o gosto ruim do que havia sido apresentado em "Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis"). Algo realmente belo de se ver na tela grande.
A trilha sonora do vencedor do Oscar Michael Giacchino (do recente filme "Quarteto Fantástico - Primeiros Passos") é bem feitinha e funcional, mas, desta vez, nada marcante. A direção de fotografia de Brett Pawlak (também da série "Magnum") tem um ou outro momento que tenta emular a linguagem e angulação das histórias em quadrinhos, o que é sempre bom. Já o figurino criado por Sanja Milkovic Hays (do igualmente esquecível filme Marvel "Thunderbolts*") traz um quê de realismo misturado aos elementos fantásticos vistos nos gibis, numa boa harmonia entre bom senso e funcionalidade.
Por outro lado, muitos efeitos especiais oscilam no quesito qualidade. Hulk, por exemplo, tem visual bem visceral - próximo ao apresentado no primeiro filme dos Vingadores -, mas algumas (poucas) cenas do Homem-Aranha se movimentando pela cidade em suas teias quase dão pra ver a mecânica de CGI. Novamente, nada que comprometa a experiência.
Semelhante ao fenômeno "Harry Potter", os filmes do Escalador de Paredes envelheceram junto com seu público e "Homem-Aranha - Um Novo Dia" é um passo muito bem firmado rumo ao amadurecimento de uma franquia - e de todo um subgênero - para deixar de contar histórias cada vez mais óbvias e vazias. E o faz como gente grande. É um filme com mais predicados do que se poderia esperar - e que vale cada centavo do caro ingresso de cinema. Que bom!
(Atenção: o filme tem apenas UMA enigmática cena pós-créditos, que revela o que acontece com nosso herói num futuro próximo - provavelmente, a primeira pista sobre o filme "Vingadores - Guerras Secretas")
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