Dirigido por Cate Shortland, estrelado por Scarlett Johansson, Florence Pugh, Rachel Weisz, David Harbour, Olga Kurylenko e Ray Winstone, "Viúva Negra" é o segundo filme Marvel protagonizado por personagens femininas. Mas o que isso realmente significa?


Antes tarde...?
Mais de dez anos depois de sua estreia no Universo Cinematográfico Marvel (numa participação especial lá em "Homem de Ferro 2", de 2010, lembra?), a cultuada personagem Natasha Romanoff ganha sua estreia solo nas telonas, jogando refletores em seu passado e apontando uma trilha tortuosa para parte do futuro dos tão humanos heróis e heroínas da Casa das Ideias. Chega a ser irônico imaginar os motivos por trás da demora para a Marvel Studios entregar esse filme. Pouca confiança nas bilheterias? Baixa possibilidade de venda de brinquedos? Machismo? Todas as respostas anteriores?


O mais próximo da verdade é que os filmes de ação mais recentes estrelados por personagens femininas não haviam sido suficientemente bem em relação às bilheterias. Isso mudou com exemplares de qualidade duvidosa como os dois filmes da Mulher-Maravilha - que dividiu a crítica mas agradou em cheio o público-alvo - e, há dois anos, "Capitã Marvel", personagem desconhecida do grande público mas que ultrapassou a barreira de um bilhão de dólares nas bilheterias mundiais. Mesmo que no passado filmes com mulheres no papel principal não agradassem o público em geral, isso já deixou de ser verdade há pelo menos uns bons quatro anos. O que nos leva a "Viúva Negra", que chega aos cinemas - após um adiamento de um ano, por conta da pandemia - mas também em streaming.


Na trama (que se passa após os eventos de "Capitão América: Guerra Civil" e antes de "Vingadores: Guerra Infinita"), Natasha Romanoff (Johansson) – também conhecida como Viúva Negra – enfrenta o mais sombrio de seus negócios inacabados (sim, e ocorreu em Budapeste), lidando com uma conspiração perigosa que tem ligações com o seu passado. Para consertar esse grande erro de outrora, ela deve reatar laços com os ex-agentes Melina (Weisz), Alexei (Harbour) e Yelena (Pugh), pessoas que antes eram conhecidos como sua... "família" (ou quase).


Sem qualquer aparição de nenhum outro personagem da bem-sucedida franquia Marvel - exceto pela última das duas cenas pós-créditos -, "Viúva Negra" faz bonito ao apoiar-se apenas na bem construída mitologia das personagens criadas nos quadrinhos por Stan Lee, Don Rico e Don Heck desde 1964 que o roteiro - escrito por Eric Pearson (de "Thor: Ragnarok" e episódios de "Agente Carter"), com história de Jac Schaeffer (do superestimado "WandaVision") e Ned Benson (de "Dois Lados do Amor") - abraçou sem dó. Está tudo lá, desde agentes russos em contra-espionagem, passando por super-soldados bem treinados, diversas locações - que vão de Ohio para Noruega, de Cuba para o Marrocos e o céu é, literalmente, o limite),  atentados suicidas e, claro, reviravoltas que só surpreende a quem é jovem demais para ter assistido qualquer filme antigo de agente secreto - não, não esses novos, com testosterona a mil e câmera tremida, mas aqueles que sempre tinha um vilão com rosto medonho e... bem, falar mais seria dar algum spoiler (há uma homenagem a um desses filmes numa cena onde Natasha assiste TV).



Mesmo assim, com tudo isso a favor, "Viúva Negra" vai, certamente, agradar à legião de fãs da personagem mas, como filme, é apenas.. correto. E isso não chega nem perto de ser um elogio quando vemos cenas de ação bem problemáticas - algumas lutas são muito mal coreografadas, a ponto de se ver os cabos onde os dublês estão pendurados - e algumas cenas dramáticas que parecem "esticadas" para poder "explicar" as motivações de algumas personagens, mesmo que todo mundo já tenha verbalizado anteriormente cada razão para fazer o que faz, como se o filme fosse direcionado para um público mais jovem do que deveria (tanto que sangue só é visto em rostos e braços, mas nunca em órgãos vitais, por exemplo).


Ainda sobre o roteiro, algumas soluções da trama parecem convenientemente acontecer para proteger nossa heroína enquanto outras que são apresentadas misteriosamente não são usadas. Estão ali apenas ~"porque sim" - uma delas pode até mesmo suscitar novas teorias para explicar se Natasha estaria viva após os eventos de "Vingadores: Ultimato"... E ainda sobra uns poucos - mas claros - momentos para citar parte dos ideais feministas (assim como em "Capitã Marvel") mas de forma bem discreta para não assustar aquela parte frágil do público, sabe...


Ainda que não haja nenhum real destaque na área da atuação, Scarlett Johansson segura bem o protagonismo, ainda que dividindo-o parcimoniosamente com Florence Pugh. David Harbour trabalha bem o lado cômico da trama - não é filme Marvel se não tiver piadinhas, certo? - e Rachel Weisz está apenas funcional (mas é bom saber que essas personagens estão, de alguma forma, "por aí" e que existe a possibilidade de vê-las novamente). O veterano Ray Winstone está esforçado como a personificação da vilania (bem bondiana, mas que cairia feito uma luva se interpretado por Kevin Spacey - se este não estivesse com o filme queimado em Hollywood) enquanto que Olga Kurylenko, O-T Fagbenle e William Hurt são praticamente figurantes de luxo (Hurt deve ter apenas uma fala, sem a menor importância na trama). E sim, Ever Anderson - que interpreta a jovem Natasha - é a talentosa filha de Milla Jovovich, mas isso tá na cara...


Já a inspirada trilha sonora original composta por Lorne Balfe (do recente "A Guerra do Amanhã") homenageia os clássicos temas do cinema de espionagem mas também se inspira nos famosos corais soviéticos da época da Guerra Fria, criando o clima perfeito em diversos momentos da trama. E a direção de fotografia de Gabriel Beristain (do já citado "Agente Carter") parecem muito inspirada nas histórias em quadrinhos, com ângulos ousados em algumas cenas e iluminação cromática em outras para criar a dramaticidade correta em cada tomada.


Como já foi exposto, o filme é uma aventura isolada, que se resolve em si mesmo. Mas há duas cenas pós-créditos. A última expande parte das situações apresentadas tanto nesta trama como o que foi apresentado ao final do seriado "Falcão e o Soldado Invernal" - sim, além de ter de reassistir dois filmes, provavelmente também é necessário assistir um seriado para entender que personagem aparece nesta cena.


"Viúva Negra" é um filme honesto em sua proposta e que demorou muito tempo para ser lançado. Demorou mais de uma década para que os chefões de Hollywood deixassem as mulheres trouxessem a grana pra casa dessa vez. Mas se esse filme fosse lançado lá em 2013 ou pouco depois, após o sucesso de "Os Vingadores", provavelmente teríamos uma boa trilogia que representaria boa parte do público - e nos polparia de hediondos, nada criativos ou sofríveis filmes de super-heróis ao longo dos anos. Mas homem não gosta de perguntar o caminho quando está perdido, não é mesmo...?



Durante a pandemia, Kal J. Moon exibe uma saliente barriguinha, deixou a barba crescer mas ainda cabe direitinho em seu traje de super-herói. Porém, já colocou-o no sol após a lavagem para sair aquele cheiro todo de heroísmo acumulado...


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