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CRÍTICA [STREAMING] | "The Electric State", por Kal J. Moon

Dirigido por Anthony Russo & Joe Russo, estrelado por Millie Bobby Brown, Chris Pratt, Ke Huy Quan, Jason Alexander e Woody Norman - além de participação especial de Giancarlo Esposito e Stanley Tucci, contando ainda com elenco original de voz de nomes como Woody Harrelson, Anthony Mackie, Brian Cox, Jenny Slate, Hank Azaria, Colman Domingo e Alan Tudyk, o filme "The Electric State" é uma mistura de conceitos pré-estabelecidos da ficção científica mas que, por alguns motivos, não deram liga. Quais? Que bom que perguntou...


Fricção científica
O filme mais caro da plataforma paga de streaming Netflix (até agora, uma vez que, de tempos em tempos, essa marca é sobrepujada). O primeiro grande projeto dos Irmãos Russo desde "Vingadores - Ultimato". Um elenco estelar - cuja estrela e diretores vieram até o Brasil divulgar a obra, de um jeito que somente uma super produção faria. Efeitos especiais decentes. E, tudo isso, desperdiçado em duas horas de marasmo e conceitos retirados de diversos outros filmes, porém mal aproveitados de uma forma que torna tudo o que se segue em algo completamente sem graça... Esse é o resumo da experiência de assistir "The Electric State".

Na trama, uma adolescente órfã pega a estrada com um robô misterioso em busca do irmão há muito desaparecido, encontrando no caminho um contrabandista, seu robô ajudante e uma conspiração para manter o mundo hiper conectado... de propósito.

No papel - que, vale lembrar, aceita tudo (principalmente ideias ruins) -, pode até ser que a proposta de adaptar a graphic novel homônima de autoria de Simon Stålenhag fizesse sentido. Afinal, os direitos foram adquiridos lá no distante ano de 2017 (dois anos antes da debandada dos Russo da Marvel Studios e, assim como aconteceu com "O Procurado", um ano ANTES da obra original ser publicada).


A direção seria de Andy Muschietti, com distribuição pela Universal Pictures mas, após três anos no chamado "inferno de desenvolvimento", a pré-produção parou no fatídico ano de 2020, com Muschietti saindo para finalmente iniciar a produção do pavoroso "The Flash". A plataforma paga de streaming Netflix só entra como mecenas do século XXI a partir de 2022, quando finalmente as filmagens começam e a obra audiovisual sai do papel.

Anthony e Joe Russo são conhecidos pelos filmes Marvel mas, como produtores executivos, tocam diversos projetos na já citada Netflix (os filmes da saga "Resgate" ou "Agente Oculto") como na Prime Video (no caso, a franquia "Citadel", com a série principal e spin-offs). Após a última investida na Marvel Studios, como diretores tocaram o insosso "Cherry - Inocência Perdida" (talvez o mais próximo de um ~"filme de arte" que a dupla tenha feito).

Okay, os Irmãos Russo nunca foram conhecidos por extrair de seus elencos atuações dignas de prêmio ou por terem uma visão mais elaborada em suas obras. Ambos têm bastante influência de outros diretores veteranos - provavelmente, a influência mais clara seja de James Cameron -, que também são conhecidos por gerenciar bem filmes de grande orçamento e entregar produtos que, com o roteiro certo, se tornam sucessos de bilheteria. São diretores "executores" e "funcionais", nesse sentido - o que não é um demérito (muito pelo contrário). E o que deu errado em "The Electric State", afinal?


Talvez o tema intrinsicamente afinado com a ficção científica mais hardcore, com conceitos de difícil assimilação. Daí, não há como não enumerar como causa o roteiro do duo Christopher Markus e Stephen McFeely (do excelente "Capitão América - O Soldado Invernal"). O texto da dupla pega "emprestado" concepções advindas de obras como "Matrix" (e "Animatrix"), da série "Tales From The Loop", fortes doses da saga "Ghost in the Shell" e de "Jogador Nº 1", além do fato de que o clímax foi retirado de um episódio da clássica série animada "Cowboy Bebop". Isso não seria problema se a mistura fosse elaborada de uma forma em que os elementos combinassem de um jeito orgânico e funcional para a narrativa. Porém, com a apresentação proposta, soa como meramente derivativo.

Outro grave problema é a escalação de elenco. A começar pelo coprotagonista Chris Pratt (da franquia "Guardiões da Galáxia" e "Jurassic World"). Considerado o Dedé Santana norte-americano (obrigado, Marlo George!) - porém sem o mesmo talento -, está em modo de atuação apenas funcional mas sem muito esforço. Culpa, claro, do que o roteiro entregou ao ator e pseudo comediante.

Porém, num exercício criativo, se o trocássemos pelo ator Chris Hemsworth, além de fazer mais sentido por conta das piadas com masculinidade e aceitação corporal, ainda teríamos alguém com mais carisma e que trabalharia as funções de "escada" com maior funcionalidade que Pratt. É impressionante como um ator conhecido por uma grande maioria de trabalhos em filmes de comédia não consiga fazer a audiência rir com nenhuma piada proferida em pouco mais de duas horas de duração...


O mesmo vale à incensada Millie Bobby Brown. Quando é que Hollywood vai parar de investir em atores e atrizes sem carisma para estrelar seus filmes? Ok, ela fez um grande sucesso na série "Stranger Things" mas, fora de lá ("Enola Holmes 2", "Godzilla vs. Kong", "Donzela"), ninguém a atura - independente do que os índices de audiência da "locadora vermelha" digam em contrário... Faltam à atriz bons textos como o da série que se passa em Hawkins, Indiana - e, não nos esqueçamos, de diretores que consigam extrair o melhor que a atriz nem sabe que pode entregar.

Stanley Tucci (do recente "Conclave") e Giancarlo Esposito (de "Capitão América - Admirável Mundo Novo") tem pouco a fazer com o texto que lhes foi entregue. O jeito foi agir conforme pedido, sem elaborar muito ou trazer algo que pudesse ser um diferencial dramático (até porque ambos estiveram bem pouco em set  - com atuações remotas em quase todas as cenas que aparecem, com raras exceções).

Idem para as pífias participações do Ke Huy Quan (vencedor do Oscar por "Tudo Em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo"), Jason Alexander (da clássica série "Seinfeld" e de "A História do Mundo - Parte 2") e Woody Norman (de "Drácula - A Última Viagem do Demeter") - este último, até se esforça com o pouco que tem para trabalhar, ainda que seu personagem não tem justificativa suficiente para não conseguir sair da situação em que se encontra (algo que é parcialmente resolvido no controverso final).

O gigante e estelar elenco de voz (Woody Harrelson, Anthony Mackie, Brian Cox, Jenny Slate, Hank Azaria, Colman Domingo e o onipresente Alan Tudyk - se tem robô, claro que tem Tudik no elenco) até se esforça mas não ter esse expressivo conjunto de astros e estrelas em cena deixa o filme - assim como aquele mundo distópico - ainda mais vazio e sem vida.


Quanto aos aspectos técnicos, o que dizer da trilha sonora original e protocolar composta por Alan Silvestri?! Ter o compositor do clássico tema da saga "De Volta para o Futuro" em seu projeto é 50% de acerto e, mesmo assim, a trilha é utilizada em cenas bem mundanas, como numa cena em que a protagonista sai de casa e toca um tema grandioso que mais parece que foi inserida de forma errônea na montagem... E vale dizer que, durante os créditos finais, tocam outros temas de Silvestri que não aparecem durante a rodagem e que tem inspiração bem jazzy (lembrando o que foi feito no já citado "Cowboy Bebop" e "Os Incríveis" - e, provavelmente, por isso mesmo, não foram utilizadas), o que traria um ar divertido e aventureiro à história (mas, para isso, o texto teria de estar de acordo).

A direção de fotografia de Stephen F. Windon (de "Velozes e Furiosos 10") é competente, ainda que coubesse um pouco de angulosidade e algumas tomadas cromáticas - para tornar cenas um pouco mais atraentes visualmente falando. A edição comandada por Jeffrey Ford (do recente especial Marvel "Lobisomem na Noite") é problemática em pelo menos um momento no terço final, em que uma cena se repete de ângulos diferentes com diferença de um certo tempo entre as tomadas - como se um acontecimento decisivo "desacontecesse" e "reacontecesse" entre espaços distantes de tempo...

Os efeitos visuais e práticos, assim como o design de produção e direção de arte, são elaborados e visualmente bem atraentes mas sem terem nada demais depois de um tempo de exposição na tela. Talvez até concorram a prêmios num futuro próximo mas talvez não seja o caso...


É louvável que a produção tenha tido um orçamento maior que 350 milhões de dólares e empregado diversas pessoas na indústria durante períodos conturbado no mercado cinematográfico como a pandemia e a greve em Hollywood. Mas poderia ter contratado roteiristas melhores ou, ao menos, fazer correções no roteiro para que a experiência fosse minimamente palatável não somente ao grande público como também a quem é um pouco mais exigente quando o assunto é trama - ainda mais se contarmos com exemplos de ótimos filmes como "Godzilla Minus One" e "Flow", realizados com um décimo desse orçamento inchado (ou menos) mas com resultados melhores em matéria de entretenimento...

Com uma proposta sombria demais para a produção - até o tema da eutanásia é abordado em dado momento -, "The Electric State" é um filme atrapalhado com temas interessantíssimos mas que não tem pessoal devidamente capacitado para desenvolvê-los a contento. Talvez nas mãos de um cineasta mais afeito à escrita (James Gunn? Edgar Wright? Alguém?)

Insistem num pretenso clima de aventura juvenil mas com trilha sonora voltada para um público que passou dos quarenta - e muito mal utilizada ainda por cima (repare na cena em que toca "Breaking The Law", da banda Judas Priest), apelando para uma nostalgia que boa parte do público-alvo nem vai entender do que se trata. É um filme bem esquecível - e, mesmo se lançado nos anos 1980, seria igualmente esquecível.

Sabe quando se faz um bolo e ele não "sola", mas fica com pouco açúcar? Aquele bolo que se come e pensa "pô, isso aqui tá faltando alguma coisa, talvez com uma cobertura ou recheio". Pois é... "The Electric State" é um filme bem artificial. E olha que nem é trocadilho. 




Kal J. Moon nunca infringiu a lei mas sabe que a lei não venceu. Desde então, tenta enviar boas vibrações a toda rosa que tem espinhos...

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